Entre manchetes emocionais e julgamentos virtuais, a presunção de inocência virou peça de ficção.

Mais uma vez, uma tragédia na medicina foi suficiente para transformar um médico em alvo público, antes mesmo da conclusão de qualquer investigação técnica. Bastaram poucas horas após o óbito de uma paciente submetida a cirurgia plástica em Belo Horizonte, para que parte da imprensa e das redes sociais fizesse aquilo que já virou rotina no Brasil: substituir perícia por narrativa, cautela por audiência e informação por linchamento.
Segundo nota divulgada pela equipe médica, a paciente realizou todos os exames e avaliações pré-operatórias indicados, que apontavam condições adequadas para o procedimento. A paciente foi devidamente informada sobre os riscos, consentindo com eles. Durante a cirurgia, toda a assistência necessária foi prestada, e diante da intercorrência fatal, todas as medidas clínicas disponíveis foram adotadas. Ainda assim, infelizmente, a paciente não resistiu, possivelmente por Tromboembolismo Pulmonar (TEP), uma complicação amplamente prevista na literatura médica para a cirurgia, sem qualquer conexão com médico, e cujo risco foi devidamente informado à paciente. O IML foi acionado imediatamente, e o caso segue sob apuração pericial.
Ainda assim, contra toda a lógica técnica e científica, o tribunal das redes elegeu imediatamente como responsável pelo óbito o cirurgião, que possui(a) reputação ilibada, com RQE em Cirurgia Geral e Cirurgia Plástica, é devidamente registrado no CRM-MG e na SBCP-MG, e possui todas as credenciais técnicas necessárias para realização das cirurgias em questão.
Ou seja: neste momento, não existe laudo conclusivo, não existe conclusão técnica, não existe sequer indício público de suposto erro médico. Mas existe “julgamento social” e ele já começou.
Um dos comentários que li na data de ontem afirmava: “essa não é a primeira complicação grave deste cirurgião!” Ora, o cirurgião já realizou mais de 2,8 mil cirurgias em sua carreira. 2 complicações graves representariam um percentual de meros 0,07%. E quando falamos de complicações em lipoaspiração, há estudos que indicam um índice de intercorrências acima de 33%, e outros que apontam a ocorrência de TEP (hipótese considerada para o caso) em 14,77% dos casos de complicações.
Como qualquer ser humano, o médico goza da presunção de inocência, sobretudo em casos como o presente, em que não há qualquer indício de responsabilidade. Nem todos os eventos adversos são evitáveis, e imputáveis ao médico. A medicina não é uma ciência exata, e o médico nunca terá total domínio sobre o desfecho de uma cirurgia. Sua obrigação é utilizar a melhor técnica visando o melhor resultado possível, sem qualquer garantia.
A cirurgia plástica envolve muitos riscos, mesmo no caso de pacientes jovens e saudáveis, e em que pese a adoção de todas as medidas de precaução de complicações e intercorrências. O papel do cirurgião é informar o paciente acerca dos riscos, e obter seu consentimento. Caso isto ocorra adequadamente, o paciente assume os riscos de um eventual mal resultado (exceto caso este decorra de culpa de terceiros). Eventos adversos podem ocorrer em qualquer procedimento médico, e não são sinônimo de erro médico. O erro deve ser provado, e nunca presumido.
Mas no Brasil atual, basta a palavra “cirurgia plástica” aparecer ao lado da palavra “óbito” para que parte da sociedade entre automaticamente em estado de histeria moral. O médico deixa de ser profissional e vira vilão. A investigação deixa de ser necessária, e a culpa passa a ser presumida.
A imprensa noticia como se estivesse narrando um crime. Perfis nas redes sociais transformam tragédia em entretenimento, e uma multidão de especialistas instantâneos, que jamais abriu um livro de medicina, passa a decretar culpa com base em manchetes, cortes de vídeo e comentários de Instagram. E o mais curioso é que ninguém parece disposto a aceitar uma verdade extremamente simples: complicações médicas existem, inclusive fatais, mesmo quando tudo é feito corretamente. Isso não é negligência, isso é medicina real, fora da fantasia vendida por influencers e pelo jornalismo emocional. Mas explicar isso gera menos clique do que transformar médicos em monstros.
Nos últimos anos, criou-se no Brasil uma cultura perigosíssima: a ideia de que todo desfecho ruim necessariamente decorre de responsabilidade médica. Como se o médico tivesse obrigação de resultado absoluto. Como se a medicina fosse matemática. Como se o corpo humano obedecesse a um “contrato de garantia”.
E é justamente por isso que existe consentimento informado, avaliação de risco cirúrgico, protocolos médicos e responsabilidade técnica. Não para prometer desfechos perfeitos, mas para reduzir riscos dentro dos limites possíveis da ciência. O problema é que parte da sociedade já não quer compreender riscos, quer culpados. E a imprensa descobriu que isso dá audiência.
O roteiro é sempre parecido: o caso acontece, surgem manchetes insinuativas, jornalistas assediam familiares e médicos ainda nas primeiras horas, narrativas emocionais começam a substituir fatos técnicos e, quando a perícia finalmente chega, meses depois, a reputação do profissional já foi destruída. Mesmo sem erro, mesmo sem culpa. Porque absolvição não viraliza, mas linchamento, sim.
O mais perverso é que quase ninguém enxerga que, em muitos desses casos, existem duas vítimas simultâneas: a família que perdeu alguém querido e o médico que, além de lidar com a morte do paciente, passa a enfrentar destruição pública, perseguição digital e julgamento antecipado.
E não se trata de proteger médicos de responsabilização, pois o médico que erra deve responder por isso. Mas erro médico precisa ser provado, e nunca presumido. Isso deveria ser o mínimo, em uma sociedade minimamente civilizada.
Enquanto isso não acontece, seguimos normalizando uma cultura grotesca, em que pessoas são condenadas publicamente antes mesmo da conclusão da perícia. A praça pública da Idade Média apenas mudou de endereço: saiu do centro das cidades e foi para as redes sociais.
E há uma ironia particularmente cruel nisso tudo: a mesma sociedade que massacra médicos nas primeiras horas após uma fatalidade será a primeira a exigir “mais humanização”, “mais empatia” e “mais saúde mental” desses mesmos profissionais no dia seguinte.
Talvez esteja na hora de compreender que médicos também adoecem. Também sofrem. Também colapsam sob pressão. E que transformar toda tragédia médica em espetáculo de caça às bruxas não protege pacientes — apenas destrói pessoas.
Nunca é demais lembrar: Há 3 anos escrevi nesta coluna sobre um médico que tirou a própria vida, após ter seu nome injustamente ultrajado pela imprensa. O caso gerou grande comoção na classe médica, pouco interesse na população geral, e nenhuma reflexão por parte dos jornalistas tóxicos, que seguem praticando as mesmas ilegalidades.
Casos sensíveis como este deveriam ser abordados pela imprensa de forma isenta, responsável e profissional. O assassinato de reputações que ocorre sempre que há uma fatalidade na medicina, independente da comprovação de responsabilidade do médico, é criminoso. A medicina não é uma ciência exata, portanto, deve ser preservada a presunção de inocência até apuração técnica. O erro precisa ser provado, nunca deve ser presumido.
No fim das contas, o que mais assusta não é a existência de fatalidades na medicina. Elas infelizmente sempre existirão. O que assusta é a velocidade com que parte da sociedade perdeu completamente a capacidade de esperar os fatos para manifestar sua opinião.
Porque Brasil atual, a perícia é lenta, técnica e silenciosa. Já o linchamento é imediato, emocional e extremamente lucrativo. E talvez essa seja a parte mais assustadora de todas: não estamos mais diante de uma sociedade que busca a verdade. Estamos diante de uma sociedade que consome culpados.





